O livro com que concluo o projeto de leitura é "O outro que era eu" de Ruben A. Gostei bastante deste livro especialmente por não se ter revelado monótono e também pelo facto de se traduzir principalmente pelos pensamentos de um "Eu", maioritariamente irónico e crítico, que narra a história. Este "Eu" encontra-se fragmentado, localizando-se a sua outra parte ("Outro que era eu") em França. Apesar de se encontrarem fortemente distanciados um do outro, o "Eu" apresenta-se como omnisciente, tendo sempre conhecimento absoluto dos acontecimentos ocorridos na vida do "Outro que era eu" e até dos seus estados de espírito. No livro, a história nunca é abordada pelo ponto de vista da personalidade que se encontra em Lyon.
"Ficámos dois- e dois em carne, sem possibilidade de controlar o Outro que se dirigia a sítios e a cidades inverosímeis. Eu sabia onde ele estava, via perfeitamente em que comboio seguia e até, quando numa tarde de inverno ele chegou a Lyon, contentei-me pelo facto de ter ido a um sítio onde, graças a Deus, nunca pudera os pés. O Outro estava em Lyon esquecido no correr dos meses."
Ao longo do livro o "Eu" apresenta-se adoentado e fragilizado, impossibilitado de viver absolutamente, visto que nenhum médico conseguia diagnosticá-lo devidamente. Durante esse período este convive somente com os familiares e com os amigos, sendo uma constante vítima da opinião pública, que após ter conhecimento da sua dualidade, provoca a forte e constante oposição da Cidade ao seu peculiar caso.
"O meu caso, até aí considerado como benigno, começou a apaixonar a opinião pública da cidade quando o Outro se convenceu de que era eu.(...) zunzuns relatavam-se mordazmente à obstinação declarada de alguém que queria possuir um eu alheio.(...) A cidade que até então achara graça à minha história(...) começava a desconfiar.(...) A tudo eu respondia sem uivar. Em falso não me apanhavam. O termómetro raro oscilava. Botijas não me aqueciam nem arrefeciam. Era a cidade que me preocupava.(...)"
Perante a oposição da cidade, o "Eu" conta apenas com o apoio das "feias" e com o esposa do oftalmologista, em detrimento do dos seus próprios amigos.
"Assim entre o meu amor e as feias da cidade estabeleceu-se um íntimo próprio, real, sem aventura, perfeitamente controlado pelos passos que a cada momento cruzava com as mulheres indiferentes de beleza.(...)Eram elas que me defendiam em comícios de esterilidade, eram todas as frustradas que estabeleciam um alerta ao menor indício de ataque. Estavam por mim (...)".
É feita uma constante referência às Cortes de Cascais, que no final do livro se apresentam para testemunhar a tão esperada uníão entre o "Eu" e o "Outro.
"Saltou para a plataforma, olhou para mim, eu olhei para ele, avançámos uns passos e... pela primeira vez na história da Humanidade deu-se a integração total de um ser em outro.(...) Do oposto a tudo que era eu, que tanto me fez sofrer durante anos, meses, séculos, eu passei à integração definitiva, total, absoluta dentro do próprio ser, processo que o mundo consideraria como início para novas descobertas."
A meu ver, este "Outro", apresenta-se como tudo aquilo que nos está em falta. Pode-se tratar de sentimentos, bens materiais ou simplesmente um alma gémea, uma cara metade.

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